(Metro)intermitência


Eu olho atento por entre os vãos da divisória do escritório
Uma alcatéia de pedra arrasta-se vagarosa até a escada
São animais exaustos e inseguros – como nós também o somos
Porém, rugem, rugem alto, dirigem tudo.

Ao término do desfile lento, deixo as tralhas na clausura,
ganho o que acreditam ser as ruas.

Os deuses tiveram seus nomes encaminhados ao SPC dos espíritos
Estão imersos em dívidas registradas em um muro
devidamente grafitado de lamentações na esquina.

Neonazistas pardos sonham despertos com casais de mesmo sexo
– e excitam-se -, enquanto atiram dos trens de subúrbio em movimento
adolescentes de cabelos ensaboados e camisetas dos Ramones.

Das fissuras do asfalto recapiado brotam agora pequeninos malabaristas
entorpecidos pela falta. Têm todos a idade dos sobrinhos, filhinhos e netinhos daqueles que juram estar a salvo do outro lado.

”Que se passe adiante, que espetáculo do semáforo seja breve,
que não nos levem os pertences”, suplicam em uníssono no interior dos modelos blindados - algumas buzinas emitem vozes.

Há um corpo miserável ardendo em chamas na calçada de uma loja de
departamentos.

O centro foi estendido e revitalizado, informa o outdoor risonho afixado na lateral de um arranha-céu espesso vendido como cartão postal – aqui o drama humano passa por reformas de estrutura.

Absorto na fauna histérica, perco o foco da tensão. Devaneio
A alcatéia, em campo aberto, nada mais tem de lenta
aproxima-se sem alarde e devora-me com volúpia.

Serei digerido aos poucos no retorno ao escritório.

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