Ingleses rejeitados no Bom Retiro

Assisti ontem ao segundo show que os “ingleses rejeitados” Cockney Rejects fizeram no Brasil. Mais precisamente no Hangar 110, em São Paulo. Localizado numa quebrada do bairro do Bom Retiro, onde a singular fauna de judeus ortodoxos, chineses e bolivianos compõe o ambiente, o lugar é o nosso CBGB’s. Fiquei alucinando na comparação enquanto me dirigia ao local - ainda mais por ser aquela a minha segunda ida. Tardiamente, só visitei o Hangar 110 pela primeira vez no show dos escoceses The Rezillos, outro clássico do punk rock, há dois anos.

A caminho do equivalente nacional, lembrei, saudoso, das vezes em que estive no lendário clube de Nova York que abrigou a movimentação do punk rock e das new e no wave. Em certa ocasião, assisti ali a outro grupo que eu adorava quando moleque, o Chaos UK. Assim que subiu ao palco, o vocalista, num sotaque malaco da periferia inglesa, bradou: “Aqui neste mesmo palco estiveram Ramones, Television, Blondie, Talking Heads, não é ? Bela merda. Esses putos nunca foram punks”. A platéia veio abaixo e o hardcore dos caras só maneirava para o vocalista insultar o clube, os EUA, a si próprio e a rapaziada presente. Uma maravilha.

Os senhores do Cockney Rejetcs, Micky Geggus (guitarra), Jeff Turner (vocal), ambos da formação original de 1979, Tony Van Frater (baixo) e Andrew Laing (bateria), não insultaram a audiência paulistana e fizeram uma apresentação que disse muito à minha memória afetiva. Pude reencontrar figuras míticas no Hangar 110. Soube que alguns daqueles com os quais dividi peripécias juvenis estão muito bem, e que outros se perderam na loucura e na marginalidade. Éramos membros de gangues, reconheço.

Houve pequenas tensões em meio ao pogo, é claro. Um ou outro corre-corre de seguranças. Afinal não se tratava de um encontro hippie. Como o Chaos UK visto no CBGB's, o Cockney Rejects faz parte da chamada segunda geração punk britânica. E na avaliação daquela garotada suburbana e raivosa, Sex Pistols, The Damned, The Stranglers e The Clash, ainda que ícones, fizeram concessões à indústria. Eram os novos burgueses. Daí o surgimento dos contrapontos: o hardcore à la Discharge, Varukers e Chaos UK e o street punk de Sham 69, Angelic Upstarts e Cockney Rejects – mais tarde o street punk seria chamado de oi! em referência a uma composição de 1980 dos Rejects, Oi! Oi! Oi!.

Antes da performance dos moradores da zona leste londrina, os vocalistas dos Invasores de Cérebros (o grande Ariel) e dos Lambrusco Kids (Marcio Faveri) criticaram a intolerância daqueles que acreditam no estapafúrdio neonazismo tropical. Na mesma medida, os Rejects também reafirmaram a distância da extrema-direita que cooptou boa parte dos skinheads na Europa – ah, nunca é demais lembrar que os primeiros skins ingleses ouviam r&b, soul e música jamaicana. Lembranças, lembranças, como naquela faixa do disco Trashland, das Mercenárias. Opa, mas aí já é coisa do pós-punk.

Comentários

Joana Rizério disse…
adorei um texto seu que li no blog de uma menina, é sobre o charme dos lavadores de pratos. há de fato um charme nisso! e este também é meu amuleto e um alimento para meus sonhos de viagens. beijos, Joana
Rodrigo Carneiro disse…
Hey Joana! Fico feliz que tenha gostado. Muito obrigado pela visita. Bjs
Lampião disse…
...pior foi 25 de abril de 1999, quando Larry Troutman meteu bala no irmão Roger (que era o que usava a talk-box). Mas aí já é "pós-funk" né brimo?...rsrsrs
Bobage.
Tô na área,cavalheiro. Tá uma beleza isso daqui. Tava fazendo falta uns texto tipoteu. Dscarréga brimo!
Rodrigo Carneiro disse…
só é, heheh. zumbi era lampião, lampião era zumbi, brimo. classe a vê-lo por aqui. abs

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