Ao som de Miles, o início de uma história de amor



Há algumas semanas, a cantora Flora Purim, uma das maiores do mundo, contou o início de sua longeva história de amor com o primoroso percussionista Airto Moreira no programa O Som do Vinil, exibido pelo Canal Brasil - Butterfly Dreams (1973), álbum gravado por ela nos EUA, era o tema do semanal. Filha de pai violinista e mãe pianista, desde muito nova, Flora sempre soube tudo de música erudita e jazz. Ávida colecionadora de discos, certo dia ela chamou Moreira, com quem estava tocando em uma boate paulistana, para uma audição de Miles Ahead, disco que Miles Davis havia lançado em 1957. Por alguma razão inexplicável, Moreira sempre lhe fora distante. Nos ensaios, conversava o estritamente necessário. E só aceitou o convite por se tratar da audição de um álbum de Miles que ele desconhecia. Algo que Flora insistia que ele fizesse. “O disco tem tudo a ver com você”, argumentava. Talvez intuísse que anos mais tarde, lá estaria Moreira na banda e na ficha técnica de Bitches Brew (1970), outro momento luminoso de um dos artistas mais importantes do século 20. Pois foram os dois para a casa da cantora. Miles Ahead foi colocado na vitrola. Aos primeiros acordes de "My Ship", de Kurt Weill, Moreira baixou a guarda. Caiu em prantos, extremamente tocado pela interpretação de Miles. Flora então perguntou se estava tudo bem. E aproveitou para brincar com o músico que se debulhava em lágrimas: “Homem não chora, Airto”. Ao que o percussionista prontamente respondeu: “Pode até não chorar, mas agora eu já não sou nem mais homem. Sou só música, e estou completamente apaixonado por você”.

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