O péssimo profeta ou como acabar com um domingo


"Vibre mais com as coisas, Rodrigo!", é o que minha mãe sempre diz


Érico Birds, o falso profeta e André Satoshi. O Ricardo Mix está lá atrás, arrebentando na bateria. Fotos: Ronaldo Franco

Descobri que sou um péssimo profeta. Sentindo-me uma versão pop do João Batista bíblico, aquele que teve a cabeça cortada, previ aqui aos senhores que eu, juntamente com os comparsas de Mickey Junkies, estaria com toda a alegria do mundo no palco do Carioca Club, no último domingo, dia 25. Quebrei a cara. Paguei a língua. A alegria do mundo passou longe da Cardeal Arcoverde, ao menos pra mim. Claro que a possibilidade de tocar com Yo-Ho-Delic, Anjo dos Becos (meus patrícios) e os norte-americanos do Fishbone conspirava para a previsão empolgada. E quero dizer que a frustração não está relacionada a nenhum dos grupos citados. Estivemos todos juntos em um agradável jantar de confraternização na terça-feira, 20. No dia seguinte, entrevistei o vocalista Angelo Moore, conhecido também como Dr. Madd Vibe, em uma matéria do Showlivre.com que acabou ganhando destaque na capa (ou home) do UOL. O que motivou até mesmo uma antiga e dolorosa paixão radicada no estrangeiro a surgir do nada com acenos virtuais e memórias assombrosas. O que a audiência de um grande portal não faz pelas relações humanas, não é? Mas o nosso tempo passou feito um rato pela sala, oh, ex-amor.

Bom, voltemos à profecia furada. Na segunda-feira, 26, li no site da Rolling Stone Brasil, em texto assinado por José Norberto Flesch, que “O show do Fishbone, na noite de domingo, 25, em São Paulo, no Carioca Club, foi, na verdade, a principal atração de um festival dos anos 1990. Mickey Junkies e Yo-Ho-Delic praticamente ressurgiram com essa oportunidade de aquecer a plateia para os gringos. Pena que havia pouca gente para vê-los. Com a casa quase às moscas, por volta das 20h, o MJ tocou por cerca de 30 minutos com som bom. A situação não mudou quando entrou o Yo-Ho-Delic. A qualidade do som destoou da maior parte dos eventos do gênero. Normalmente as bandas nacionais tocam em condições técnicas bem abaixo do headliner.”

Condições técnicas: eis aí uma das primeiras polêmicas. A sonoridade no momento em que tocamos só estava boa porque insistimos em passar o som (pra quem não sabe, passar som significa ajustar volume, amplificar instrumentos, ensaiar trechos de música com a aparelhagem ligada, testar microfones, cabos, enfim). Na véspera do show, nosso técnico de áudio, o lendário Paulo “Véio”, recebeu a informação de que as bandas nacionais não o fariam. Pra mim, passagem de som é troço sagrado. Não tem nem conversa. Coisa mais Rock in Rio de 1985 esse lance de disparidade de som entre cucarachas (nós, no caso) e gringos. O pior é que a lengua-lengua acontece ainda nos dias correntes, vejam só. Sabendo que não iríamos ao local se não houvesse passagem, Paulo e o nosso produtor, o grandioso Marquinho, conseguiram negociar e só os Mickey Junkies tiveram a permissão de passar o tal do som. Combinou-se o período das 13h às 18h para o Fishbone e o das 18h às 19h para nós. Quando cheguei ao Carioca Club, percebi que nossa postura não agradou muito o representante da produção do evento, que já se mostrava um tanto irritadiço com o baixo número de ingressos vendidos previamente. Não sei exatamente o que foi armado entre os responsáveis pela vinda do Fishbone ao Brasil – nem me interessa -, mas é claro que a festança fechada open bar com a performance alucinada da banda na Eazy, na quarta-feira, faria estragos na bilheteria do show de domingo. As pessoas preferiram tomar muita cerveja importada, sair nas colunas sociais dos sites de balada e assistir ao grupo de graça, o que é legítimo. Falando em assistir de graça, num primeiro momento, nos foi oferecido apenas um nome de convidado por cada integrante da banda para o domingo. Muito pouco. Uma afronta, até. Também batemos o pé. Pós-nova negociação, conquistamos mais nomes.

Terminada a passagem. Ficamos lá pelo camarim. Cada banda com o seu. Idas e vindas entre um e outro. Interação. Brodagem. Parecia tudo tranquilo. Ainda bem que o Marquinho estava como produtor – mais uma hein, Marquinho? Nos foram dadas duas informações: entrada no palco às 19h30, depois às 20h. Ficamos com a segunda determinação. Baladinhas de camarim, Marquinho em frente ao Carioca Club para receber uma pessoa, e de repente um: “vocês têm que entrar agora. Cadê o produtor de vocês?” Lá foi o Marquinho lembrar os mais pilhados do horário das 20h. Tensão. Acabamos entrando no palco às 19h45. Sim, gatos pingados estavam na casa. Não tenho medo de público reduzido. Nesses anos de envolvimento com música, já fui visto por números variados de testemunhas. Gente demais abarrotando inferninhos, casas de médio porte, bares de beira de estrada, rua, festas de faculdade, prostíbulos, festivais, etc. E gente de menos também. Houve uma ocasião em que cantei para umas, sei lá, 90, 100 pessoas no Estádio do Pacaembu. Imaginem. Isso sim é que é ninguém na plateia. Ou melhor, gramado, que, notem, não podia ser usado. As testemunhas ficavam nas arquibancadas. Era um delírio de um dos herdeiros do hotel Maksoud Plaza: 24 horas ininterruptas de rock num dos mais famosos estádios do Brasil. Acho que tinha um cunho beneficente, uma daquelas boas intenções do qual o inferno está cheio, mas só faltou uma divulgação mais agressiva. Lembro de uma matéria de serviço no Jornal da Tarde e só. Ao menos as bandas dos outros Estados e agregados em geral ficaram hospedados no hotel. Eu também fiquei por lá e aprontei bastante. Valeu pela zona nos quartos e corredores. Eram assim os anos 1990.

Para o domingo ilegal, havíamos previsto um set list enxuto. Ensaiamos um bloco de coisas da antiga, duas versões e duas músicas inéditas. Sacando a movimentação estranha que se formava nos bastidores, ainda exclui do set uma música que me é bastante cara - escolhas são sempre difíceis, bem sei eu. E o que tínhamos era um punhado de canções que, ao modo dos Ramones, - só no um, dois, três, quatro - seriam apresentadas quase sem intervalo. Cronometrado, sim, cronometramos, o set daria 30 minutos. A exata parte que nos cabia no latifúndio da noite. Porém, lá pela quinta música, noto que o estresse está em cena às minhas costas. Gritam que só poderíamos tocar mais duas canções. O tempo urgia (pra quem?), a casa, como diz a matéria da Rolling Stone, às moscas. Marquinho, com razão, berrando com aquele que nos obrigava a reduzir ainda mais o repertório. Vou dizer uma coisa aos senhores, nunca tive ilusões com o rock. Com nada, aliás – minha mãe sempre me aconselha a vibrar mais com as coisas, inclusive. Abrir os trabalhos para uma banda como o Fishbone – que, volto a dizer, não criou problema nenhum; salve os músicos, salve a equipe técnica – não paga as minhas contas. Aos 37 anos, estar nos Mickey Junkies é para mim atividade lúdica. É celebração da bagunça que fizemos enquanto jovens – bagunça que significa algo para determinadas pessoas - e do amor e do respeito que temos uns pelos outros. Não posso permitir que tumultuem esse fluxo de energia. Foi o que lamentavelmente aconteceu naquele palco. Em verdade, as duas músicas restantes, tornaram-se uma. Àquela que estávamos tocando. Na sequência, ainda anunciei “In the midnight hour”, de Wilson Pickett, na correria, mas o barraco estava armado. Olhei aquilo tudo e perguntei aos meus botões: ”mas que merda é essa?”. Já que os botões não disseram palavra, desejei uma boa-noite aos presentes e virei as costas. Detesto final abrupto que não tenha sido previsto.

De volta ao camarim, entendi a motivação daqueles que arrebentam com a mobília, destroem espelhos com golpes de cadeira. A ideia de sair na porrada com determinada figura também me pareceu supimpa. Numa solidão extrema, fui me convencendo a sufocar o pit bull interno enquanto fitava os quadros das paredes que me cercavam. E oprimiam. Uma gravura horrenda ali, fotos da jovem Marisa Monte e de um bloco carnavalesco do início do século passado acolá. Minha vontade era a de desaparecer. Ir, como dizia o Antônio Maria, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert. Mas fiquei ali, me acalmando. Sabia que amigos queridos – os convidados presentes na lista dos MJ - estavam na plateia diminuta para me acolher, e ainda havia os shows das outras atrações da noite. Queria assisti-los, ainda que estivesse mergulhado num copinho raso de mágoa. Acompanhei as aparições com olhar melancólico. Ao chegar em casa, fiquei pensando no significado da palavra frustração. Guiado por ela, escrevi algumas bobagens impublicáveis – não é esse texto; poupei os senhores - e fui dormir. Decididamente, não foi uma das minhas melhores noites de sono. Segue a rima. Caem as falsas profecias.

Comentários

Anônimo disse…
Então, os caras dessa casa Carioca Club realmente são uns xaropes, chatos, ignorantes e presenciei coisas bizarras aprontadas pelos seguranças que se diziam cuidar de uma casa de família.

Ass.: Skateboarder Salve Oz no Riff e no Timbre.
akirarw disse…
É meu caro, a ilusão dos tempos atuais. Uma analogia: temos tv's de lcd, plasma e led, mas o que passa são programas de auditório e humor com formato de 50 anos atrás.
rodrigo carneiro disse…
É exatamente isso, Rubinho! Abs.
Ed Cruz Junior disse…
Puxa Carneiro, que merda hein !
O rock sambou no Carioca Bullshit club ... Nunca fui fã dessa casa não ... Mas como sua mãe disse, vibre sempre, não deixe isso te afetar não...Como Sartre disse : " Suba num prédio e olhe-os de cima "
Ps: I'm Sorry por não ter ido, correrias mil nessa Babilônia desenfreada... nos falamos Abrax
rodrigo carneiro disse…
É isso, Ed. Está tudo certo, só precisava registrar o episódio, até para exorcizar. Dia 15 tem mais. Dessa vez em Osasco. Balada deep roots. Quiser chegar...
Forte abraço, queridão.

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