"David Bowie, o homem que previu o futuro do pop, tem legado revisto"

David Bowie visita tribo Massai, Quênia, 1978

Conversei com Peter Doggett, autor do livro The Man Who Sold the World: David Bowie and the 1970s, Adriano Cintra, Chuck Hipolitho, André Frateschi e Daniel Belleza para batucar o texto “David Bowie, o homem que previu o futuro do pop, tem legado revisto”, publicado na edição desta terça-feira, 9, do jornal “Valor Econômico”. Ei-lo aqui.

"David Bowie, o homem que previu o futuro do pop, tem legado revisto"

Por Rodrigo Carneiro | Para o Valor, de São Paulo

David Bowie não lança discos desde "Reality" (2003). Tampouco apresenta-se ao vivo. Diferentemente das performances grandiloquentes do passado, suas raras aparições públicas são triviais. Recentemente, uma imagem sua, datada de 2005, caminhando em trajes veranis por Nova York a exibir, com a elegância de um lorde inglês, o dedo médio a um paparazzo gerou comoção nas redes sociais. Dada a reclusão, o retrato atual de um dos maiorais da cultura pop vale uma bela soma de libras esterlinas no mercado inglês dos tabloides. Ninguém consegue fotografar o homem conhecido como camaleão.

Aos 65 anos, Bowie está longe dos holofotes, no entanto, segue na ordem do dia. São tributos, reedições de álbuns, exposições, capas de revistas e mostras de cinema a tematizar sua admirável trajetória artística. "Bowie teve sérios problemas de saúde em meados da década passada [ele sofreu um infarto, em 2004, no camarim de um show alemão]. O esquema das grandes turnês é muito desgastante. Ao que, sob orientação médica, ele simplesmente deu um basta", diz ao Valor o escritor e jornalista britânico Peter Doggett, autor do livro "The Man Who Sold the World: David Bowie and the 1970s" (O Homem que Vendeu o Mundo: David Bowie e os anos 1970). Notório pelos excessos químicos nos anos 1970, o músico elegeu um novo estilo de vida. "Ele tem esposa, filha pré-adolescente e decidiu que o foco seriam elas, não a fama. Já a distância da produção musical está relacionada ao fato de não precisar mais gravar um disco atrás do outro, nem ter que divulgá-los em turnês", diz o autor. "Bowie é uma usina criativa, mas tem se expressado de outras formas."

Diversidade de expressão é algo caro a Bowie. "A sede do compositor fez com que ele transitasse pela música, moda, artes plásticas, mímica, dança, teatro e cinema", diz o ator e músico André Frateschi, intérprete da obra do camaleão no show/espetáculo "Heroes". "Depois da mudança para Nova York, ele se envolveu com a Factory de Andy Warhol [1928-1987], produziu discos de Lou Reed e revelou Iggy Pop para o mundo", diz. Frateschi lembra também que, com o personagem Ziggy Stardust, Bowie foi o pioneiro na criação de um alter ego artístico, chegando a conceder entrevistas como tal. "Ele ainda deu um nó no rock machão e deixou todo mundo pop atordoado com sua androginia. Os ecos de sua arte estão aí até hoje, em artistas como Lady Gaga."

Por falar em Ziggy Stardust, o álbum "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars" (1972), teve em 2012 uma edição remasterizada e comemorativa de 40 anos. No disco, além de incorporar um personagem, Bowie canta, toca violão acústico, saxofone e cravo. E assina a produção ao lado de Ken Scott. No lançamento, em julho de 1972, o álbum chegou rapidamente ao 5º lugar nas paradas britânicas. Um ano depois, em 3 de julho de 1973, no auge de um estrondoso sucesso, Bowie anunciou a morte de Ziggy diante da audiência que lotava o Hammersmith Odeon, em Londres. Até os integrantes da banda ficaram surpresos.

O disco quarentão se irmana a outros do mesmo período - registros magistrais e sexualmente ambíguos, definitivos da estética "glam", onde, claro, Bowie teve papel fundamental: "Transformer", de Lou Reed, e "Raw Power", de Iggy Pop and The Stooges. Em "Roxy Music" (1972), estreia da banda inglesa Roxy Music, ele não participou dos bastidores, mas gravou "If There Is Something", à frente de seu projeto paralelo Tin Machine em 1991. "Ele é o primeiro popstar a brincar com a sua orientação sexual, e isso deu a muita gente a confiança necessária para 'sair do armário'. Ele também desconstruiu a ideia de estrelato, e o que significava ser uma estrela - toda a responsabilidade e a loucura disso", diz Doggett.

Para o músico e compositor Adriano Cintra, do Madrid, o artista figura num altar. "Considero Bowie Deus. Ele absorveu as tendências e as tornou populares antes dos originais", afirma Cintra, fundador, em 2003, do CSS, grupo no qual atuou até 2011. "Ele previa tudo como uma espécie de Mãe Dináh do pop", diz o músico e artista plástico Daniel Belleza, que tem apresentado, ao lado dos sintetizadores vintage de Astronauta Pinguim, o show "Daniel Belleza canta David Bowie", dedicado à fase eletrônica do inglês, que compreende os álbuns "Low", "Heroes" e "Lodger", editados entre 1977 e 1979.

Integrante da banda Vespas Mandarinas, produtor musical e VJ da MTV, Chuck Hipolitho é outro dos admiradores: "Bowie está no patamar dos inovadores capazes de transcender a percepção do mundo e traduzir isso em forma de arte. Não tem como passar batido pelo tipo de coisa que ele produziu."

Não mesmo. Que o diga a megaexposição "David Bowie Is", prevista para ocorrer entre 23 de março e 28 julho de 2013 no Museu Victoria and Albert, em Londres. O objetivo, segundo a curadoria, é explorar o processo criativo do artista ao longo de cinco décadas, com mais de 300 itens. Entre eles, letras manuscritas, instrumentos e figurinos assinados por designers como Kansai Yamamoto e Alexander McQueen (1969-2010).

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